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A pandemia está sendo a prova dos nove para mostrar que as chamadas indústrias 4.0 – aquelas que incorporam em larga escala tecnologias digitais na produção – são mais resilientes à crise. Em meio às turbulências desde março, essas empresas conseguiram atingir melhores resultados comparados aos da manufatura tradicional.

As indústrias 4.0 lucraram mais e mantiveram ou até ampliaram as contratações de trabalhadores em relação ao período pré-pandemia. Resultado: hoje estão com melhores perspectivas de faturamento para o ano que vem. Isso é o que revela uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), obtida com exclusividade pelo Estadão. Foram ouvidas cerca de 500 indústrias, de todos os portes. 

A pesquisa, feita entre a última semana de outubro e meados de novembro pela Instituto FSB Pesquisa, revela que 54% das indústrias que adotaram de uma a três tecnologias digitais na produção registram hoje um lucro igual ou maior que no período pré-pandemia. Esse resultado está sete pontos porcentuais acima do registrado pela indústria analógica.

A tendência se repete nas contratações. No mês passado, 30% das indústrias que adotaram até três tecnologias digitais tinham ampliado os quadros de funcionários em relação ao período pré-pandemia. Já o aumento do emprego na manufatura tradicional ocorreu com uma fatia menor, 21% das empresas, na mesma base de comparação.

Preconceito

Entre as tecnologias digitais, a maior parcela de empresas que ampliou o emprego, 37%, foi registrada nas companhias que adotaram a robótica avançada, aponta a pesquisa. Com esse resultado, cai por terra um velho preconceito. Desde que a indústria 4.0 começou a avançar no país, a partir de 2013, ela sempre esteve associada à ideia do desemprego, diz o economista João Emílio Gonçalves, gerente de Política Industrial da CNI. “Todos os momentos da história de mudanças tecnológicas estiveram ligados ao receio de redução expressiva no uso da mão de obra.”

No entanto, pondera Gonçalves, quando se avaliam dados internacionais de uso de robôs na produção industrial, por exemplo, não se constata uma correlação entre o maior uso da tecnologia digital com o avanço das taxas de desemprego. É que, quando são incorporadas novas tecnologias, a demanda por empregos mais qualificados aumenta e a população se educa para desempenhar novas funções.

Na avaliação de Vinícius Fornari, especialista em política industrial da CNI e um dos responsáveis pela pesquisa, o desempenho mais favorável alcançado pela indústria 4.0 na pandemia em relação à manufatura tradicional se deve, em boa medida, à própria característica da indústria digital, que tem uma produção mais autônoma. “Com a adoção de tecnologias digitais, a produção fica mais flexível e a automação é maior.” 

E essas características, observa o especialista, acabaram se encaixando perfeitamente na crise provocada pela pandemia. O momento atual exigiu o distanciamento social e a paralisação de muitas atividades. As empresas que usavam essas tecnologias conseguiram manter o ritmo de produção durante o período de isolamento.

Outro resultado de destaque da pesquisa diz respeito à inovação. No grupo de indústrias que incorporaram quatro ou mais tecnologias no seu processo produtivo, 71% delas afirmaram terem inovado na pandemia. Já esse resultado foi bem menor, 37%, entre as empresas que não adotaram tecnologias digitais na produção. As maiores parcelas de indústrias 4.0 que inovaram na pandemia estão entre as que adotaram Big data (75%) e inteligência artificial (72%).

Reação rápida

A mineira Provest, confecção de  médio porte com sede em Ipatinga e especializada em uniformes profissionais e equipamentos de proteção individual (EPIs), é um exemplo de indústria que conseguiu inovar e crescer na pandemia. “Estamos na contramão do mercado, principalmente do setor de confecção”, diz o diretor de estratégia da empresa, Victor Araújo.

Neste ano, a companhia ampliou em 35,5% o faturamento sobre 2019 e superou as expectativas. E o lucro  avançou na mesma proporção.  Em meados do ano, a empresa dobrou de tamanho: chegou a ter quase mil funcionários diretos e indiretos. Em janeiro de 2020, eram 600 trabalhadores.

Nos últimos cinco anos, a empresa investiu cerca de R$ 3 milhões em equipamentos e soluções tecnológicas 4.0. Os recursos foram aplicados em quatro ferramentas  importantes: internet das coisas, Big Data, integração dos processos e computação na nuvem. 

Para Araújo, o desempenho tão satisfatório da empresa na pandemia é resultado de uma combinação de fatores. “Tudo está atrelado ao conjunto de tecnologias e transformações  que estamos fazendo internamente, guiada principalmente por essa cultura de inovação, de buscar novas  tecnologias e melhorias de processos, maior agilidade nas soluções e aumento de produtividade.”

Em março, quando foi decretada a pandemia, Araujo conta que a companhia correu para desenvolver produtos para atender às novas necessidades do mercado, já que a venda de uniformes e EPIs para grandes clientes, como Vale, Usiminas, Fiat e Mercedes-Benz, por exemplo, se reduziu muito. Segundo ele, a empresa foi uma das primeiras a desenvolver a máscara de tecido. “Fabricamos mais de dois milhões de unidades”, conta.

Outra frente de ação da companhia foi fechar uma parceria com a DuPont, dos EUA, para importar um tecido especial e confeccionar no País um macacão que evita o risco de contaminação em contato com o coronavírus. Antes, esse macacão só era fabricado nos EUA. Segundo Araújo, a cultura de inovação fez a empresa pensar e agir rápido  frente às adversidades do momento. “Criamos soluções alternativas para não ficar parados e deixar tudo cair.”

Para 2021, o empresário está otimista e acredita que vai expandir entre 10% e 15% o faturamento. A intenção, segundo ele, é “organizar a casa”, para não perder o grande avanço alcançado este ano.

Também a pesquisa da CNI indica  que as perspectivas para 2021  são mais promissoras para as indústrias 4.0. Para 63% dos executivos que atuam nesses negócios, a receita deve aumentar no ano que vem, um resultado quatro pontos porcentuais maior (59%) em relação às indústrias que não adotaram nenhuma tecnologia digital.

Fonte: Estadão

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